Águas Claras se tornou uma das regiões administrativas mais cosmopolitas do DF. Tem noite fervida, baixo índice de criminalidade e problemas típicos de metrópole

Perto do céu: os prédios altos são vistos de longe e deixam a aviação em constante alerta (Foto: Joédson Alves)
O publicitário brasiliense Lucas Andrade perdeu a conta de quantas vezes sofreu bullying por morar em Águas Claras, a 20 quilômetros de Brasília. Ele se mudou para lá em 1999, quando a cidade, uma das 31 regiões administrativas do Distrito Federal, era apenas um local distante, lamacento, inóspito e vazio. No Centro Universitário de Brasília (UniCeub), na Asa Norte, onde estudava, os colegas caçoavam de Andrade o tempo inteiro. Diziam que ele comprava pão francês quente no Plano Piloto e o comia frio em casa, por causa da distância. “Eu achava engraçado, porque realmente não havia padaria em Águas Claras e tínhamos de comprar as coisas na Asa Sul ou no Guará”, afirma. Hoje, as piadas que fazem referência ao isolamento do centro urbano ficaram no passado. A cidade cresceu tanto que, atualmente, são os moradores do Plano que seguem até lá para visitar amigos e curtir a noite, uma das mais fervidas da região. “Antes, quando eu dizia que morava aqui, os brasilienses torciam o nariz. Hoje, eles me ligam para perguntar se vai ter esquenta em casa”, diz Andrade.
Com características únicas, essa área metropolitana não se compara a nenhuma outra do DF. A começar pela aparência. Seus 400 arranha-céus são vistos de longe. Como está cercada por um parque verde e tem trânsito intenso, cultiva certa semelhança com Manhattan, o setor mais densamente povoado de Nova York. O administrador da cidade, Carlos Sidney de Oliveira, não esconde a obsessão por transformá-la em algo, pelo menos de longe, parecido com a megalópole americana. “Há algum tempo, tudo isso era um imenso terreno ermo e ninguém queria vir morar aqui. Hoje, é a cidade do DF mais próxima do céu e com prédios de luxo que não devem nada aos do Plano Piloto”, afirma Oliveira.
A bem da verdade, a cidade de Águas Claras nasceu meio por acaso. No início da década de 90, quando o governo do Distrito Federal começou a tirar do papel o projeto do metrô de Brasília, notou-se que havia um enorme vão entre Taguatinga e o Guará. A ideia era fazer do local um bairro de luxo, mas ninguém apostou nisso e os terrenos passaram a ser vendidos quase a preço de banana. Até que a Companhia Imobiliária de Brasília, a atual Terracap, encomendou ao urbanista Paulo Zimbres uma cidade diferente de todas as outras. “O terreno inicial tinha 400 hectares. Como estava espremido, pensei em fazer uma cidade vertical, com torres magras e altas e outras gordas e baixas, tudo com uma estrutura bucólica, parecida com a de Brasília”, descreve o arquiteto.
Dez anos depois de inaugurada, Águas Claras nada tem a ver com o desenho original de Zimbres. “A especulação imobiliária, como sempre, estragou tudo. Os prédios são cafonas e os arranha-céus descaracterizaram a ideia inicial”, queixa-se. Apesar desse aspecto negativo, o preço dos apartamentos pode se valorizar até 400% em um ano. O arquiteto diz que só tem orgulho da cidade por causa das esquinas que tanto faltam no Plano Piloto. “Aquele amontoado de prédios é horroroso, mas tenho de reconhecer que eles criam uma dinâmica que facilita as relações e a paquera, pois todo mundo se encontra no playground e nos bares ao lado”, ressalta.
Segundo a Associação Comercial de Águas Claras, a cada ano aumenta em 50% o número de bares e restaurantes no local. Os empresários do setor costumam dizer que alguns negócios prosperam tanto que migram para o Plano. É o caso do Primeiro Cozinha de Bar, um dos points mais badalados da região. A marca nasceu lá em 2011 e, no fim do ano passado, inaugurou uma filial no Sudoeste.
VEJA BRASÍLIA passou duas semanas em Águas Claras e deparou com comportamentos que não existem nas superquadras do Plano Piloto. Como a cidade tem vias estreitas, o contato frequente entre os moradores é inevitável. Nos fins de tarde, eles caminham e conversam pelas calçadas. As padarias ficam cheias e todo mundo se cumprimenta. Isoladas por muros e grades, as áreas comuns dos prédios mais parecem uma creche por causa da quantidade de crianças que correm e brincam gritando. Na maioria dos prédios de alto padrão, aos domingos, os moradores descem juntos e fazem almoço coletivo. “Um leva o feijão, outro, o arroz, um terceiro traz a carne e por aí vai. Às 15 horas temos um banquete para trinta pessoas à beira da piscina”, descreve a funcionária pública Claudilene Gonçalves. Nesse aspecto, obviamente, Águas Claras em nada se parece com Manhattan. Claudilene mora em um apartamento de 150 metros quadrados, avaliado em 1,2 milhão de reais, no 28º andar de um condomínio de trinta pavimentos. “Quem sempre morou no Plano não sabe o que é viver de verdade”, provoca.
Como toda metrópole que cresce sem rédeas, Águas Claras tem problemas. O mais evidente é o trânsito carregado. Segundo um levantamento da administração, entre 7 e 9 horas da manhã, 14 000 carros passam pelas três entradas que dão acesso à cidade. Entre 18 e 20 horas, quando a população está voltando do trabalho, o fluxo de veículos nas mesmas vias chega a bater em 16 000. “Meu sonho é fazer de Águas Claras a Nova York do cerrado. E, como toda cidade grande, o trânsito caótico faz parte da paisagem”, justifica Oliveira, o administrador. Ele se vangloria de quase todos os prédios terem o nome grafado em inglês. Seu próximo projeto é fazer o Parque Central numa área de 7 hectares com muito verde e um lago no meio. Tudo idêntico, segundo ele, ao Central Park nova-iorquino.
Águas Claras se divide em três áreas. A mais evidente é a chamada cidade vertical, onde se concentram os arranha-céus. Bem ao lado está a Área de Desenvolvimento Econômico. A terceira — e menos nobre — chama-se Areial. Um dos maiores espaços irregulares do DF, o Setor Habitacional Arniqueiras, com 1 645 casas sem escritura, tornou-se um apêndice.
A babalorixá mais famosa na região, Mãe Lúcia Luz, fez, a pedido de VEJA BRASÍLIA, um jogo de cristais, conhecido como runa, e traçou o seguinte prognóstico para a cidade: “Como ela foi construída sobre nascentes de águas límpidas, quem mora lá terá um futuro puro. É a cidade mais próspera do DF”. Os moradores, cada vez mais perto do céu, rezam para ela estar certa.
Vida independente
Com tudo à mão, esta família só vai ao Plano Piloto para consultas médicas
Nívia com Carolina e Henrique: segurança para os filhos (Foto: Michael Melo)
A escola das crianças fica bem ao lado. O trabalho dos pais também. De casa até o cabeleireiro, do qual a família toda é cliente, dá para ir a pé. A padaria que vende pão quentinho fica tão perto que dá para avistá-la da janela. Com toda essa comodidade, a corretora de imóveis Nívia Cristine e Silva não sai de Águas Claras para quase nada. “A última vez que fui ao Plano Piloto tinha uma consulta médica marcada no Setor Hospitalar Sul. Faz um mês”, conta. Ela e os dois filhos, Carolina e Henrique, amam a cidade que escolheram para morar. No fim de semana passado, a menina reuniu um grupo de estudo em casa. Chegaram colegas de todos os lugares, inclusive do Plano Piloto. “Antes, íamos à Asa Sul para tudo. Hoje, os moradores de lá é que vêm para cá”, diz a mãe. Ao chegar a Águas Claras, em 2007, Nívia comprou um apartamento de 100 metros quadrados por 190 000 reais. Em 2012, ela vendeu o mesmo imóvel por 450 000 reais e comprou um outro no 24º andar, atualmente avaliado em 900 000 reais. “A maior vantagem é que o meu filho entra no elevador, aperta o P e continua dentro do condomínio, que é fechado e seguro. Em Brasília, você aperta o P e desce na rua”, compara, referindo-se ao fato de o playground dos prédios do Plano Piloto ser uma área pública.

Duelo de espigões
Arranha-céus disputam o título de construção mais alta
Tower Club (à esq.) e Sagitarius: diferença de 3,86 metros (Foto: Michael Melo)
Dois espigões de 32 andares fincados no coração de Águas Claras brigam pelo título de maior prédio do DF. Construídos lado a lado na quadra 206, os residenciais Tower Club e Sagitarius podem ser avistados de qualquer ponto da cidade. O síndico do Tower, Luiz Carlos Alimandro, diz que a construtora entregou os apartamentos há dois anos dizendo que era a edificação mais próxima das nuvens em solo candango. O empresário Victor Caldeiras de Mello, morador do Sagitarius, mostrou um fôlder da construtora da época do lançamento no qual consta a mesma informação. Olhando tanto de longe quanto de perto, os dois prédios parecem ter a mesma altura. Pelo sim, pelo não, a administração de Águas Claras mediu os dois empreendimentos e afirmou que o Tower tem 104,42 metros de altura, enquanto o Sagitarius atinge 108,28 metros. Com diferença de 3,86 metros, o último vence a disputa. O excesso de prédios altos deu à cidade o apelido pejorativo de paliteiro. No entanto, a farra dos arranha-céus em Águas Claras acabou. Por causa do fluxo de aviões, que sobem e descem no Aeroporto de Brasília, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) determinou que os prédios da cidade não tenham mais de 28 pavimentos. “Não vejo muita vantagem em morar tão alto. No horário do rush, o elevador demora até quinze minutos e já chega lotado”, conta a médica Celeste Viñas, moradora do Sagitarius.
Em ritmo acelerado
Badalação, esquinas, engarrafamentos e gente bonita fazem parte do cenário
A noite ferve no fim de semana. Bares e pubs lotam com gente jovem. OEighties (foto) é um pub que alterna bandas ao vivo com DJs especializados em músicas dos anos 80 (Foto: Michael Melo)
Uma das características mais marcantes são as esquinas bem evidentes. As placas azuis com o nome das ruas — ausentes no Plano Piloto — são motivo de orgulho dos moradores (Foto: Michael Melo)
Na hora do rush, o trânsito nas três entradas da cidade beira o colapso. Se houver um ônibus enguiçado no caminho, o percurso até o Plano Piloto pode durar até duas horas e meia (Foto: Michael Melo)
Miss Águas Claras 2012, Glelany Cavalcante repassa a coroa a Jéssica Freitas, eleita para reinar em 2013. As duas musas são reconhecidas e cumprimentadas nas ruas (Foto: Michael Melo)
Crimes próximos de zero
As principais reclamações são barulho e furtos de pneu
Cynthia Martins: queixa na delegacia depois de três meses (Foto: Michael Melo)
Quando se fala em segurança pública, pode-se dizer que Águas Claras é quase o paraíso. Segundo a Secretaria de Segurança Pública do DF, na região conhecida como vertical, onde estão os prédios mais altos, a criminalidade é branda. A cidade chega a ficar um ano inteiro sem registro de homicídios. Na lista dos maiores delitos constam furtos de pneu, briga de vizinhos e perturbação do sossego. O titular da 24ª Delegacia, Alexandre Dias Nogueira, que administra o policiamento na localidade, afirma que os agentes do DF sonham em trabalhar ali. Na semana passada, a assistente social Cynthia da Silva Martins esteve na delegacia para reclamar contra um caminhão que foi descarregar material em frente ao prédio onde mora e bateu no seu Ford Ka. O acidente ocorreu há três meses. “No corre-corre, não tive tempo de registrar a queixa”, disse ela. Os policiais foram conferir o incidente na última terça. Nos quatro primeiros meses deste ano, o número de furtos de veículo em Águas Claras caiu 40%, quando comparado com o mesmo período do ano passado. No mês de abril, a cidade ganhou o seu primeiro Batalhão da Polícia Militar, com 313 agentes, 43 carros e quinze motos.
Onde comer e beber
Confira abaixo uma seleção dos melhores endereços gastronômicos, segundo os críticos de VEJA BRASÍLIA
Restaurantes
Dona Lenha Mediterrâneo
Por R$ 37,90, o cliente prova a especialidade da casa no festival de tapas, com bruschettas, pizzas, antepastos, frutos do mar e míni-hambúrgueres de picanha. Shopping Quê!, Avenida Castanheiras, fone: 4141-4446.
Kojima
Além do sistema de rodízio (R$ 63,90 por pessoa), serve preparos diferentes de sushi, caso do salmão com shimeji flambado em Cointreau (R$ 29,90). Shopping Quê!, Avenida Castanheiras, fone: 3436-2212.
Bares
Devassa
Conhecido pelos bons chopes, o bar de origem carioca serve feijoada completa em bufê aos sábados, por R$ 29,90. A comilança é animada pela banda Dr. Nagô. Avenida Araucárias, 885, fone: 3024-0690.
Empório Soares & Souza
Poucas mesas e muitas cervejas. Com mais de 350 rótulos, a casa tem no menu a espanhola Estrela Damm Inedit (R$ 41,00). Rua 9 Norte, lote 2, loja 4, Edifício Mont Bello, fone: 3084-9306.
Primeiro Cozinha de Bar
Quitutes rápidos e drinques lideram a preferência dos clientes, como a purple rain, uma caipirosca de vodca preparada com uvas verde e roxa, acrescida de um picolé da mesma fruta (R$ 15,90). Shopping One, Rua das Paineiras, lote 6, fone: 3028-4366.
Comidinhas
Casa de Biscoitos Mineiros
A maior loja da rede brasiliense oferece ótimos salgados, a exemplo do empadão goiano (R$ 36,00 o quilo). Avenida Castanheiras, Rua 34 Norte, loja 11, fone: 3435-8182.
Maria Amélia Cafeteria
Franquia da confeitaria da Asa Sul, serve os mesmos quitutes, como brigadeiro (R$ 2,00) e bolos caseiros de cenoura, limão e chocolate (R$ 49,90 o quilo). Vitrinni Shopping, Avenida Castanheiras, fone: 3082-8782.
Überdog – Amazing Hot Dogs
O cachorro-quente da casa leva combinações saborosas, caso do chili com pimenta jalapeño (R$ 10,40). Plaza Mall, Rua Carnaúbas, quadra 301, fone: 3048-3162.
Por: Gabriela de Almeida e Guilherme Lobão