Quem são os empresários que assumiram obras inacaba das e estão lucrando com o espólio da construtora
Por Joaquim Castanheira
Em 1992, o engenheiro civil Marcos Sampaio havia traçado alguns planos para sua vida. Em conjunto com sua noiva, ele adquiriu, ainda na planta, um apartamento no condomínio North Coast, que seria erguido na Barra da Tijuca pela Encol. Quando o imóvel ficasse pronto, eles se casariam, para ali se mudariam e ali teriam seus filhos. A Encol quebrou e os planos de Sampaio pareciam condenados ao fracasso. Pois bem, passado o primeiro impacto, os proprietários se uniram, dividiram os custos e retomaram as obras. Dez anos depois, o edifício foi inaugurado e Sampaio ganhara uma nova atividade profissional. Escolhido pelos futuros vizinhos como responsável técnico pela obra, ele acumulou experiência suficiente para oferecer seus serviços a outros consumidores na mesma situação. Desde então, coordenou os trabalhos em 10 outros edifícios inacabados da Encol. “Hoje, vivo à caça de massas falidas de construtoras. Do limão fiz a limonada”, diz Sampaio, hoje casado e pai de um menino de oito anos.
O Blue Coast depois: A Govasa assumiu a obra e entregou o edifício pronto para os clientes
Sampaio representa, de uma só vez, dois lados daquela que foi a maior bancarrota da história do mercado imobiliário brasileiro: a falência da Encol. A construtora era na ocasião líder do setor, dona de 15% do mercado paulistano.
Ao pedir concordata em 1998, possuía 720 empreendimentos inacabados e deixou 42 mil famílias às portas do desespero. Outros 10 mil clientes já moravam em seus apartamentos, mas não tinham a escritura definitiva do imóvel. Foi uma tragédia sem precedentes, mas, baixada a poeira inicial, os esqueletos de concreto fincados em 66 cidades brasileiras transformaram-se em um mundo de oportunidades para muitas companhias. Contratadas pelos próprios proprietários dos apartamentos, construtoras de todos os portes, como Cyrela, Gafisa e Via Engenharia, assumiram as obras e, graças a elas, aumentaram suas receitas, incorporaram tecnologias inéditas e reforçaram os conhecimentos na gestão integral de projetos. Mais: dessa forma, ajudaram os mutuários a recuperar, pelo menos em parte, o investimento feito na compra dos apartamentos. “Praticamente a totalidade dos empreendimentos foi concluída”, afirma Hamilton Quirino, um advogado especializado em direito imobiliário que atendeu cerca de três mil clientes da Encol. “Mas isso não evitou o prejuízo desses consumidores. No final eles pagaram 25% a mais do que o valor inicial.”
Oportunidade de negócios: As construtoras de Mauro (acima), Gonçalves e Tarifa (abaixo) agregaram receita e tecnologia com as obras da Encol
Por outro lado, abriu-se um mercado atraente para construtoras. De acordo com as estimativas de Quirino, o valor total de todas as unidades abandonadas pela Encol soma cerca de R$ 6,3 bilhões. A Tarjab, de São Paulo, entregou seis edifícios do espólio da Encol, num total de mais de 450 unidades. Outros dois condomínios já tiveram suas obras reiniciadas e colaborarão para que a empresa dobre seu atual faturamento anual de R$ 80 milhões. “Soubemos aproveitar a oportunidade que o mercado nos ofereceu”, comenta José Tarifa, um economista de 72 anos que divide o controle da companhia com três outros sócios. Tarifa possui duas fontes de receita nesses empreendimentos. Um deles é a prestação de serviços de engenharia e construção. Quem paga por eles são os próprios condôminos, graças a financiamentos da própria construtora ou de bancos. Na negociação, Tarifa também garantiu preferência de compra das unidades que não mais interessavam aos antigos proprietários. Num deles, a Tarjab assumiu 80 dos 196 apartamentos. Em um mês vendeu 43 deles. “O importante é atualizar e melhorar o que já existe”, diz Tarifa. “Nós agregamos de 15% a 20% de valor ao projeto original.” A Tarjab extraiu outros ganhos dos contratos. Com atuação concentrada em dois bairros de São Paulo (Vila Mariana e Saúde), as obras herdadas da Encol permitiram a expansão para outras regiões e cidades, como Sorocaba, no interior de São Paulo.
As maiores dificuldades para as construtoras não estavam nos canteiros de obras. “As negociações com os clientes eram muito sensíveis pois eles estavam desconfiados e machucados”, afirma Renato Mauro, dono da REM, que acaba de reiniciar a obra de um edifício na região da Vila Mariana, na capital paulista. “A vida dos proprietários mudou ao longo dos anos. Então, não há mais um perfil definido entre eles.” Mauro conheceu clientes que, quando compraram o apartamento há 10 anos, estavam casados. Hoje, são separados. Outros estavam empregados – agora estão à procura de trabalho. A condição financeira de uns e outros também mudou – às vezes para melhor, outras para pior. “As expectativas e necessidades de cada um são muito diferentes”, afirma o empresário. Resumo da ópera: a negociação se arrastou por dois anos e, mesmo assim, Mauro ficou com 18 unidades, quase metade do total. O projeto foi inteiramente refeito, da parte elétrica ao acabamento final. Essas modificações possibilitaram um incremento de R$ 50 mil no preço inicial de R$ 450 mil. “O empreendimento se encaixa em nosso nicho de atuação, o de imóveis de alto padrão”, diz Mauro.
Para o caixa das construtoras, assumir uma obra da Encol parece um bom negócio. “Há um estigma em relação a esses prédios. Mas eles garantem uma margem de retorno dentro da média de mercado, algo em torno de 8% a 14%”, diz Cássio Gonçalves, dono da Caenge, construtora de Brasília cujo faturamento atinge R$ 110 milhões. Gonçalves está incorporando o quinto projeto inacabado da Encol. Os outros quatro (dois flats, um edifício comercial e um residencial) estão prontos. O atual é mais complexo. Trata-se de uma torre comercial no Eixo Monumental, ponto nobre do Distrito Federal. Os proprietários não têm fôlego financeiro para suportar a retomada. Serão necessários R$ 18 milhões. Parte do dinheiro virá da própria Caenge. Em troca, a empresa receberá metade das unidades. “Estou procurando investidores para dividir o desembolso”, diz ele. A Caenge contabiliza outros dividendos. “Incorporamos novas tecnologias ao nosso conhecimento”, afirma Gonçalves. Nos flats, por exemplo, a Caenge aprimorou seu know how em sistemas de refrigeração interna e isolamento acústico. “Usaremos essa experiência em outras obras”, diz ele. “Mas de preferência em situação bem diferente da provocada pela Encol.”
O tamanho da tragédia
Resultados melhoram na comparação com primeira metade de 2004
720 edifícios ficaram inacabados com a concordata
99% das obras correspondiam a prédios residenciais
42 mil clientes foram lesados pela construtora
R$ 1 bilhão é a dívida da massa falida da Encol. Do total, R$ 30 milhões são de dívidas trabalhistas
outras 10 mil pessoas ainda não tinham a escritura
R$ 6,3 bilhões era o valor total dos imóveis inacabados
15% do mercado paulistano pertencia à Encol